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Motivação e Sucesso Escolares

por cunha ribeiro, Segunda-feira, 06.10.14
  • ( Texto baseado numa história real)   -  Ele tinha 16 anos e estava farto de ir à escola. Primeiro porque não percebia nada de nada. Matemática? « ax + b = 0 x = - b/a », era, para ele, chinês. E quanto à professora dessa disciplina, bem, essa estava longe do ser humano - parecia mais um "robot vestido de bata".  Português? o predicado para ele podia ser alguém, ou alguma coisa, e chegou-o a imaginá-lo amigo do complemento direto, por andarem tão juntos. Além disso, praticava a mais desconcertante desortografia sempre que o obrigavam a escrever uma frase. A sua média no ditado era quase sempre à volta de vinte ...erros. Quanto ao Inglês, odiava as palavras vocabulário  e gramática. às vezes concedia-lhe alguma atenção, pensando que um dia poderia ir à América (seu país de sonho..), ou entender melhor as canções inglesas que andavam sempre no top.  Mas logo se esquecia, e voltava ao marasmo. História, por vezes, tinha alguma graça, mas era Educação Física a sua disciplina favorita. Aí era um autêntico as. E foi assim, com este desempenho patético, que o João, de seu nome, teve de repetir o 6º e o 7º anos. Chamavam-no de repetente, designação que ora o incomodava, ora o "orgulhava", já verão porquê.

    Chegara, entretanto, a idade da adolescência, aquela fase da nossa vida em que começamos a tentar afirmar-nos, sempre da pior maneira. E quando falhamos sucessivas vezes, a única saída, é a fuga (no caso dele impossível), o recolhimento em si próprio (nada o seu género), ou a afronta - uma questão de orgulho. Optou pela terceira via, juntando-se à pequena comunidade de "acéfala" que rezingava ao fundo da sala de aula e sacaneava os profs ao longo do dia. A "guerrilha anti-prof" passara a ser o seu modo de vida.

    Depois, surgiu um milagre. E como surgiu o milagre? Várias causas, difíceis de separar,  estiveram na sua origem:

    Primeiro: A advertência implacável que lhe fez o pai: "  João, vais fazer 16 anos daqui a três meses, acabas a escolaridade obrigatória, vais comigo pra Fábrica, pecebeste !?

    Foi um choque daqueles!

    Entretanto, a professora de matemática que tomou conta dos repetentes tinha um ar tão atraente, e juvenil, que ele ficou apanhado por ela.

    Terá havido outras, mas já não se recorda bem. A verdade é que, em três meses, a metamorfose ocorreu. As explicações pacientes  e claras da jovem professora de matemática tornaram a álgebra facílima de perceber. As misteriosas equações (ax + b = 0 x = - b/a ) eram afinal "lana caprina". Bastava um pouco de concentração e ... pumba! Já estava. Pura magia!

    Primeiro foi uma revelação; depois, um desafio. No primeiro grande teste a essa miraculosa reviravolta o resultado foi dezasseis, numa escala de vinte. A melhor nota da sua carreira... que lhe ficou na memória, pelo menos tão viva como o primeiro beijo que, por coincidência,  datava dessa altura. Mais: ele tinha ultrapassado o primeiro aluno da turma!

    Ora se ele tinha conseguido ser o melhor, e isso lhe dera tanto prazer, por que razão não continuar?  Era só fixar objetivos e progredir. Depois recolher os benefícios - a parte boa: a excitação intelectual, a recompensa concreta das boas notas, o prazer de ser o melhor aluno da turma, e o adeus à ameaça paterna do trabalho na fábrica. O certo é que mesmo a "professora robot" o congratulara: " Então, joãozinho, que transformação?! Os meus parabéns!".

    O joão ficou muito feliz e orgulhoso.

    A seguir, vieram sucessivos triunfos: Sempre excelentes notas, no liceu e na faculdade, uma namorada fantástica,  muito orgulhosa dele, e uma licenciatura de alto nível.

    Histórias assim, não são muito raras. Há alunos que redescobrem o prazer de estudar, como o João, através da ajuda de um professor especial; outros, mudando de área escolar; outros, ainda, retomando os estudos mais tarde. O que importa é perceber que estudar vale sempre a pena, pelo prazer pessoal de evoluir, e de projetar o eu em sociedade, valorizando-se e melhorando com isso a própria sociedade.

     

    FCR

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por cunha ribeiro às 19:56