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INDISCIPLINA NA SALA DE AULA - UM EXEMPLO PRÁTICO

por cunha ribeiro, Terça-feira, 07.04.15

Causas e procedimentos para quando o aluno recusa sair da sala de aula.

200168451-001Esta é uma das maiores dificuldades pela qual os professores passam quando lidam com questões disciplinares. Frequentemente chega o momento em que não dá mais! O professor já esgotou o seu cardápio de estratégias e mesmo assim a conduta do aluno mantém-se perturbadora para o processo de ensino/aprendizagem. Quando chega esse ponto só resta ao professor uma alternativa, dar a ordem para o aluno abandonar a aula, conforme estipulado no artigo 26º, alínea b) do estatuto do aluno.

No entanto, começou a surgir um fenómeno que, se entra na moda, pode tomar proporções muito preocupantes. Estou a falar da recusa do aluno em sair da sala de aula. Quando isto acontece estamos perante uma situação eventualmente explosiva, que deve ser resolvida com inteligência e muita calma.

Analisemos este fenómeno por diferentes prismas.

O que leva um aluno a desafiar de forma tão incisiva a autoridade do professor?

Passando por cima das questões sócio-afetivas e económicas que, por si só não são suficientes para justificar a atitude do aluno, é para mim evidente que tal se deve à diminuição da autoridade da escola e por consequente do professor. Os muitos anos em que a tutela apresentou um discurso de crispação para com os docentes, minando a opinião pública de forma a justificar o estrangulamento financeiro das escolas, levou a sociedade a desprezar a autoridade e reputação que estava enraizada nesta profissão.

Posto isto, temos a própria estratégia disciplinar implementada pela escola. O estatuto do aluno não estabelece critérios de atuação (podem consultar a proposta do ComRegrasaqui),  deixando ao livre arbítrio das escolas o grau de exigência disciplinar. Esta opção é perfeitamente justificável, até porque sou defensor de uma verdadeira autonomia para as escolas, nomeadamente nas questões disciplinares. No entanto, cada cabeça sua sentença, e haverá por este país fora quem opte pela estratégia do “coitadinho” ou o extremo oposto da “vara de ferro”. Mas uma coisa é certa: se existir um sentimento de impunidade por parte dos alunos “complicados” e se o corpo docente não for defendido pelos seus superiores, estamos perante a “tempestade perfeita”.

Por fim, o próprio professor. A capacidade para gerir conflitos, a forma como cativa os alunos, o estilo utilizado (podem consultar o vosso acolá), a sua personalidade, as estratégias utilizadas, etc, tudo isso é importante para ganhar o respeito dos alunos.

Como prevenir este tipo de situações?

Como referi anteriormente, o professor é fundamental neste processo, mas ninguém o deve acusar de ser mau professor só porque tem problemas disciplinares dentro da sala de aula. O professor foi formado para ensinar e não para gerir conflitos. Não cabe só ao professor lidar com esta problemática. Os pais, através do diretor de turma e o órgão de gestão devem implementar estratégias para prevenir este tipo de situações. No meu entendimento existe uma estratégia que, ao ser enraizada na escola trará naturalmente resultados positivos. Esta medida terá um efeito preventivo e dissuasor que levará o aluno a pensar duas vezes antes de recusar a ordem da saída da sala de aula. Sou da opinião que os alunos devem ser envolvidos na elaboração desta medida, pois se estes a reconhecerem como válida é meio caminho andado para ela resultar. Esta estratégia trará também uma consequência indireta: protegerá o professor pois não foi ele que a estipulou e, na maioria dos casos, bastará consciencializar o aluno para as consequências da recusa em sair da sala de aula.

E o que é que o professor deve fazer?

Em primeiro lugar deve manter a calma. Se for possível dialogar com o aluno de forma individual, pois a sua força está na reputação que quer manter perante os outros e quanto maior o “espetáculo” mais forte o aluno se tornará. Entrar no “jogo” do agora diz ele, agora digo eu, não vai levar a nada e poderá levar a situações extremas em que tudo pode acontecer. Ao escolher este caminho o professor só “ficará bem na fotografia” se o aluno sair, mas caso isso não aconteça, a sua autoridade ficará posta em causa e aí é que é que vão começar os verdadeiros problemas…

Como esta situação já me aconteceu (podem verificar), julgo ser oportuno transmitir a minha experiência. Não é por ser melhor ou pior que os outros, é apenas o que fiz e o que aconteceu.

Simplesmente parei a aula, sentei-me calmamente e disse que enquanto o aluno não saísse, a aula não continuaria, optando depois pelo silêncio (meu e dos alunos). Normalmente é o suficiente para criar incómodo e para o aluno sair, mas se mesmo assim o aluno não sair, acrescento que quanto mais tempo ficar na aula maior será a sanção que irá sofrer. Claro que só posso dizer isto se sentir que a direção me apoia e atua em conformidade. Se essa simbiose direção/professor não existir, é melhor não fazer bluff, pois o aluno também conhece a realidade escolar. Não sou apologista de chamar alguém da direção ou mesmo de um gabinete disciplinar, pois considero que essa opção irá retirar autoridade ao professor.

O que não recomendo…

Alguns de vós, ao lerem estas palavras poderão ter pensado “Havia de ser comigo… Ai dele que não saísse, nem que eu lhe pegasse ao colo ou o arrastasse pela sala ele sairia, ai saía saía…”

Pois é, lembro apenas um episódio que aconteceu há uns anos atrás numa escola do norte do país e que envolvia um telemóvel… Lembram-se? O envolvimento físico além de não ser permitido por lei dá uma imagem de total descontrolo por parte do professor. E o professor deve ter uma conduta exemplar para aqueles que estão à sua frente. Além disso, quem está à nossa frente vai contar aos seus pais o que aconteceu e o professor poderá sofrer consequências bastantes desagradáveis, conforme estipulado no estatuto disciplinar dos funcionários públicos. Por isso amigos, muita calma nestes momentos…

Esta é uma situação complexa e cada caso é um caso. A minha verdade não será certamente a única verdade, por isso seria importante saber se já passaram pelo mesmo e como costumam resolver essa situação. Aceitam o desafio?

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por cunha ribeiro às 08:48