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Novo Programa de Português - Uma Leitura

por cunha ribeiro, Segunda-feira, 25.11.13

Os novos programas de Português do Ensino Secundário

LÚCIA VAZ PEDRO *
 

"A leitura traz ao homem plenitude, o discurso segurança e a escrita exatidão". Francis Bacon

Até dia 2 de dezembro de 2013, as propostas de novos programas de Português do Ensino Secundário, assim como as respetivas metas curriculares encontram-se sob consulta.

Depois de uma análise do documento, constatámos que os novos programas investem fortemente no estudo da literatura dos clássicos através de uma complexidade crescente nos domínios da Oralidade, da Leitura e da Escrita.

Assim, é no texto literário que convergem todas as hipóteses de realização da língua, associadas ao seu valor histórico-cultural e patrimonial, essenciais ao estudo do Português. Na verdade, o texto literário permite desenvolver no aluno as suas capacidades de compreensão e de interpretação, dada a forma diversificada como nele se oferece a complexidade textual. Por outro lado, a abordagem gramatical deverá desenvolver a consciência linguística e metalinguística e isso deverá corresponder a uma efetiva melhoria dos desempenhos no uso da língua. Assim, o domínio da Gramática assenta no pressuposto de que as aprendizagens dos diferentes domínios exigem um trabalho estruturado e rigoroso de reflexão, de explicitação e de sistematização gramatical. Deste modo, os domínios da Oralidade, da Leitura, da Escrita e da Educação Literária surgem interligados e em articulação com o domínio da Gramática.

Relativamente à leitura dos clássicos, aparece organizada de forma diacrónica.

Assim, no 10.º ano, começa-se pela Poesia Trovadoresca, onde os alunos terão a oportunidade de estudar as cantigas de amigo e as cantigas de amor. Excertos da "Crónica de D. João I" de Fernão Lopes, assim como Gil Vicente ("Auto da Alma" ou "Farsa de Inês Pereira") apresentam uma visão histórica e crítica epocal.

Sugere-se também o estudo de "Os Lusíadas" e as "Rimas" (Redondilhas e Sonetos) de Luís de Camões. Ora, atualmente, os alunos estudam a epopeia de Camões no 9.º ano e no 12.º. Na nossa perspetiva, este espaço de tempo não é favorável à compreensão da obra e, sendo em anos consecutivos, permitirá uma abordagem global mais crítica e reflexiva.

Propõe-se ainda a análise de cinco capítulos de "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto, assim como o Capítulo V da "História Trágico-Marítima".

Seguindo-se a perspetiva diacrónica, no 11.º ano, mantém-se o estudo do "Sermão de Santo António" do Padre António Vieira. Temos ainda Correia Garção, Almeida Garrett, "Frei Luís de Sousa" (integral). Poderá ainda optar-se entre Alexandre Herculano, "Lendas e Narrativas: A Abóbada" ou Almeida Garrett, "Viagens na Minha Terra", ou ainda Camilo Castelo Branco, "Amor de Perdição". Mantém-se a leitura integral de "Os Maias" de Eça de Queirós, que poderá ser substituída por "A Ilustre Casa de Ramires" do mesmo autor. Relativamente ao texto poético, sugere-se Antero de Quental e Cesário Verde.

No 12.º ano, começa-se pela poesia, onde aparece, pela primeira vez, a "Clepsidra" de Camilo Pessanha. Quanto a Fernando Pessoa, mantém-se o estudo do ortónimo, dos três heterónimos (Alberto Caeiro, Ricardo Reis, e Álvaro de Campos) e da "Mensagem". Novidade é a leitura de três fragmentos selecionados do Livro do "Desassossego" de Bernardo Soares.

Ao nível do conto, propõe-se a "Estranha Morte do Professor Antena" de Mário de Sá-Carneiro e "George" de Maria Judite de Carvalho.

Quanto ao teatro, sugere-se a leitura de as "Três Máscaras - Fantasia Dramática" de José Régio.

Os alunos deverão ainda conhecer outros poetas do século XX e escolher três autores dos seguintes: Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Herberto Helder, Ruy Belo e Fiama Hasse Pais Brandão.

Por último, "Memorial do Convento" de José Saramago dá lugar a "O Ano da Morte de Ricardo Reis e História do Cerco de Lisboa" do mesmo autor.

A escrita assume igualmente uma importância relevante. Ela deriva da convicção de que a escrita tem, a este nível, dois grandes objetivos, que Shanahan (2004) designa como "aprender" e "pensar". Desta forma, escrever para aprender e escrever para pensar, na sua articulação com o ler para escrever, são capacidades decisivas da Oralidade, da Leitura, da Educação Literária e da Gramática.

Em conclusão, estes novos programas do Ensino Secundário promovem uma perspetiva integradora do ensino do Português, onde as dimensões cultural, literária e linguística são valorizadas.

Porém, estarão os alunos recetivos a esta abordagem? Terão os professores condições para promover um programa tão ambicioso com turmas de 30 alunos?

Terminamos com uma citação de Louis Aragon que, certamente, nos deixará a refletir: "A literatura é um assunto sério para um país, pois é afinal de contas o seu rosto".


* Professora de Português e formadora do acordo ortográfico

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por cunha ribeiro às 08:41

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