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COM REGRAS

por cunha ribeiro, Terça-feira, 29.09.15

 

birraVem a propósito este título pelo facto de um destes dias estar na fila da caixa de um hipermercado e ter presenciado uma cena que me fez pensar como as nossas crianças são preparadas e “manipuladas”, pelos seus principais responsáveis pela sua educação, os pais!

Uma criança teimava com a mãe que queria levar um pacote de chicletes enquanto a sua mãe ocupada a colocar as compras na passadeira da caixa, mostrava o seu desagrado pela imposição de tão pequena criatura e insistia que ela fosse colocar o pacote de chicletes na respetiva prateleira.

Entre choros e berros e porque o problema estava a ter difícil resolução, eis que a mãe da criança lança de uma golpada uma solução para tão grande problema, propondo à filha que só poderia levar aquele pacote de guloseima, se prometesse fazer os trabalhos de casa que teria para acabar naquele dia.

A menina parou de chorar olhou para a mãe e concordou em fazer-lhe a vontade, não sem antes referir alto e bom som que só fazia os trabalhos depois de ver os bonecos da televisão!

Bom negócio!

A mãe especialista tem assim a garantia que desta forma é possível levar a criança com mais facilidade a obedecer e a sua filha conseguiu ganhar este jogo, tendo o resultado sido de 2-1 a seu favor!

Fez-me isto pensar em todas as crianças que utilizam estratégias de negociação com os seus progenitores e em todos aqueles que asseguram que esta é a melhor forma de resolver as contrariedades dos seus filhos!

Numa lógica de solução fácil, os pais vão cedendo aos caprichos das criancinhas e não percebem o quão difícil será garantir-lhes pela vida fora esta estratégia do 2-1.

Os pais através destas condutas “facilitadoras” esperam ultrapassar os problemas na relação com os seus filhos, mostrando a si próprios que educar é uma tarefa simples!

Como professor lamento que alguns pais usem estas estratégias para facilitarem a relação com os seus filhos.

Julgo que estas crianças nunca vão conseguir agir de forma diferente quando na escola são chamados a executar uma determinada tarefa quando se apelar à sua autonomia e responsabilidade.

Se o professor exigir a execução de uma tarefa ou atividade a um menino ou menina habituados à estratégia do 2-1, a primeira coisa com que vai ser confrontado é com a sua oposição e a obstinação!

É evidente que o professor, não poderá ter para com uma criança deste tipo uma atitude diferente daquela que terá com os outros colegas, correndo o risco se o fizer de passar a ter numa turma, um elevado número de crianças que se valem desse principio para atingir em primeiro lugar objetivos pessoais e neste caso a discórdia passará a ter um custo acrescido, transformando-se a sala de aula num verdadeiro canteiro de indisciplinas!

Por outro lado, se o professor contrariar estas crianças, correrá no risco de ter à porta da escola um ou vários pais exaltados que proclamarão o direito das crianças puderem ser livres de manifestar a sua oposição à execução das tarefas, sem perceberem que com atitudes deste tipo estão a por em causa o principio da autoridade do professor na sala de aula.

Em meu entender o professor não pode abdicar de ser um gerador de consensos, mas sempre que tiver que decidir por imposição não deverá renunciar a fazê-lo.

Por sua vez, os pais têm que perceber que o principal problema das suas crianças é o facto de as ensinarem a “preencher o seu vazio a partir de fora”, comprando coisas e fazendo atividades, em vez de os ensinarem como se “preencher por dentro”, fazendo boas escolhas e desenvolvendo a criatividade.

Por outro lado a ausência da figura paterna é outro problema para a geração atual de crianças, porque essa ausência, muitas vezes, é causada pela própria mãe, ainda que ela seja casada com o pai, na medida em que muitas mulheres vivem a maternidade como um poder que não querem compartilhar e percebem os homens como meros coadjuvantes — ou até mesmo figurantes, num palco em que a principal estrela é a mãe.

Muitos pais que trabalham fora dispensam-se das suas responsabilidades como educadores e não têm nenhum controle sobre os seus filhos e as crianças aproveitam-se enquanto os pais competem entre si, para oferecer coisas aos filhos.
A ausência dos pais por conta de trabalho não é necessariamente um problema em si, o erro é tentar suprir essa ausência com concessões que visam evitar 100% a frustração da criança.

A criança aprende, assim, que para conseguir qualquer coisa basta chorar.

O problema é que, na vida futura, muitas vezes não vão haver concessões, e uma pequena frustração poderá significar um grande problema para aquele jovem, que passará a desistir dos desafios.

Sentar-se com maior frequência à mesa e ter suas refeições com os filhos, pedir a ajuda da criança para preparar algum alimento, fazer um piquenique saudável no parque são formas ‘inteligentes’ de mimar as crianças, sem, contudo, estragá-las.

Cada geração tenta reparar os erros da geração anterior – e, assim, a geração atual de pais, criada ouvindo muitos “não”, tem uma dificuldade em impor limites aos filhos.

Perdidos na idealização de uma infância plenamente feliz, eles querem conselhos e orientações dos médicos, psicólogos e da escola para tomar qualquer atitude com a criança.

Que lugar sobrou para os pais? Eles são meros executores dos conselhos e recomendações da escola e do médico?

Isso demonstra uma insegurança e uma falta de confiança na própria experiência de ser pai.

Ser pai implica assumir certos riscos, responsabilizar-se pelas decisões sobre a educação de filhos, colocar em prática convicções pessoais, ideais e crenças, porque os nossos filhos esperam que nós lhes digamos o que achamos e o que não achamos bom com base na nossa própria experiência.

Arganil, 20 de setembro de 2015

João Carlos Paulo

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